A casa caiu
A situação relatada a seguir é diferente do que vivemos no Brasil, mas certamente vale a pena conhecer a história para termos uma ideia de como é importante acompanhar com muita atenção e cautela todos os negócios envolvendo aquisição de equipamentos e serviços.
Provavelmente você já ouviu falar da DigitalRev. Só de olhar para a loja virtual, se ninguém dissesse que ela é baseada em Hong Kong você não iria adivinhar. É muito provável que você nunca tenha acessado o site. Mas é bem provável que conheça a DigitalRevTV, um canal de YouTube incrivelmente popular com testes práticos de câmeras, sempre apresentados por um sujeito divertido e descaradamente narcisista chamado Kai Wong. Com irreverência juvenil e um irritante sotaque britânico, ele “pune” as câmeras sem dó em seus testes e alguém filma tudo. A loja virtual mantém esse canal como uma vitrine para mostrar os equipamentos à venda mais cobiçados do momento.
Até aí tudo bem, desde que a loja tenha um estoque de produtos novos claramente separado do inventário de produtos empregados nos testes. Após cada teste o produto pode ser devolvido à loja, mas precisa ser vendido com desconto, pois não foi apenas testado na loja, e sim usado em campo. E maltratado pelo Kai, que não respeita coisa alguma – é por isso mesmo que ele é tão apreciado por 520 mil espectadores fixos no YouTube.
Mas adivinhe o que aconteceu com o fotógrafo londrino Rob Dunlop. Ele comprou um par de Canon EOS 5D Mark III da DigitalRev e uma delas era precisamente a mesma testada pelo Kai. O cliente comprou as duas como novas e só descobriu que não era bem assim depois de passados alguns meses. Foi assim: por pura curiosidade ele colocou o número de série das câmeras no Stolen Camera Finder, um site que encontra imagens na Internet feitas pela sua câmera a partir dos metadados gravados nas fotos, os quais incluem o número de série.
Uma das máquinas de Dunlop foi identificada como a mesma que Kai bateu, usou embaixo de chuva sem proteção e esfregou em partes não mencionáveis da anatomia ao fazer uma piada de gosto questionável a respeito de suor.
Kai e seu estilo debochado têm uma legião de fãs. Se soubessem que poderiam comprar um produto testado e zoado pelo astro, provavelmente eles até pagariam mais pelo privilégio. Mas Dunlop não achou nada engraçado e escreveu em seu blog um artigo educado, porém fortemente incisivo, contando tudo o que descobrira – e a seguir escreveu à DigitalRev um email exigindo uma explicação convincente.
A companhia respondeu num tom extremamente amigável, confirmando a irregularidade e oferecendo ao cliente a opção entre devolver a câmera para obter um reembolso integral, trocá-la por outra verdadeiramente nova ou ganhar um desconto compensatório na compra de novos produtos. O funcionário informou ainda que descobrira mais dois casos iguais e que contrataria um auditor permanente para impedir novas ocorrências. Terminou elogiando profusamente Dunlop pela “oportunidade de melhorar” que ele proporcionara à companhia.
Não foi o suficiente para segurar a maré de publicidade negativa que o incidente causou entre clientes (muitos declarados ex-clientes) da loja. Logo o caso estava no PetaPixel, um dos blogs sobre fotografia mais lidos do planeta. Daí as críticas não pararam mais. Um usuário norte-americano já tinha se dado antes ao trabalho de criar um site chamado “Yes, they do suck” somente para explicar que o produto que ele comprara da DigitalRev, por ser proveniente do “gray market” (importado por via alternativa, sem passar pelo canal oficial do fabricante), não só pagara um imposto de importação na entrada – que a loja afirmara que cobriria, mas não cobriu – como não pode ser reparado pela assistência técnica do fabricante nos EUA – nem na garantia nem fora dela.
Aqui nós estamos bem familiarizados com a frase “la garantía soy yo” e, vendo o caso com o típico olhar cínico do “brazuca”, pode parecer-nos que os contratempos de nossos colegas “gringos” não passam de brincadeira de criança, frente às más surpresas que por vezes apresenta-nos o mercado local neste país moralmente subdesenvolvido. Mas a ética comercial é uma ideia essencialmente igual em todo o mundo. Basta que o “esperto” aqui ou na China cometa um deslize aparentemente pequeno (certamente ele pensou “ninguém vai perceber”) que, quando ele finalmente é descoberto, cedo ou tarde, repercute na Internet com resultados temivelmente imprevisíveis.